Significado
Não é a mãe perfeita. É a que se adapta quase por inteiro no início e, depois, falha aos poucos, na medida em que o filho já pode suportar.
A ideia
No comecinho, a mãe suficientemente boa se adapta de modo quase completo às necessidades do bebê. Essa adaptação sustenta uma ilusão preciosa: a de que o mundo aparece quando se precisa dele, como se fosse criado pelo próprio bebê. Aos poucos, e só aos poucos, ela falha. Atrasa, não entende de imediato, tem sua própria vida. Essas pequenas falhas, quando o bebê já tem como tolerá-las, é que introduzem a realidade em doses suportáveis.
O ponto é delicado e contraintuitivo: não é a perfeição que faz crescer, é a falha graduada e no tempo certo. A mãe boa demais, que nunca falha, não deixa espaço para o mundo aparecer.
"A boa mãe comum é suficientemente boa. Se ela é suficientemente boa, o bebê conseguirá, com base em sua atividade mental, dar conta das deficiências da mãe."
Winnicott, "A mente e sua relação com o psicossoma" (1949), em Da pediatria à psicanálise (Ubu, 2021).
A condição que a torna possível
Para se adaptar com tanta finura no início, a mãe entra num estado especial que Winnicott chamou de preocupação materna primária: uma sensibilidade aumentada, que se instala no fim da gravidez e nas primeiras semanas, e na qual ela fica voltada quase inteiramente para o bebê. Winnicott chega a descrevê-lo como uma espécie de doença normal, da qual depois é preciso se recuperar.
"Muitas mulheres são com certeza boas mães [...] mas não têm a capacidade de contrair essa 'doença normal' que lhes possibilitaria a adaptação sensível e delicada às necessidades do bebê nos primeiros momentos de vida."
Winnicott, "Preocupação materna primária" (1956), em Da pediatria à psicanálise (Ubu, 2021).
Na clínica
A função do analista lembra a da mãe suficientemente boa. No início, adapta-se às necessidades de quem chega. Com o tempo, suas falhas são inevitáveis, e quando podem ser nomeadas e sobrevividas, deixam de ser apenas erros e passam a fazer parte do trabalho. Falhar bem, e ficar para a conversa sobre a falha, é diferente de falhar e desaparecer.
Um mal-entendido comum
"Suficientemente boa" não quer dizer medíocre, nem é um convite a relaxar a responsabilidade. É um conceito técnico sobre adaptação seguida de desadaptação dosada. Vale também dizer: essa função não é exclusiva da figura materna nem de mulheres. Pode ser exercida por qualquer pessoa suficientemente identificada com o bebê, e é um estado temporário, não um destino.
Referência